COMPARAÇÃO DOS EXERCÍCIOS EM CADEIA CINÉTICA ABERTA E CADEIA CINÉTICA FECHADA NA ATIVAÇÃO DO MÚSCULO VASTO MEDIAL OBLÍQUO.

 

RESUMO

A síndrome da dor femoropatelar (SDFP) compreende aproximadamente 25% dos diagnósticos ortopédicos e é definida como uma dor difusa na região anterior do joelho. Embora os fatores etiológicos da SDFP não sejam bem definidos, o desequilíbrio neuromuscular entre os músculos vasto medial oblíquo (VMO) e vasto lateral (VL) resultam em mau alinhamento patelar. Sendo assim os exercícios em cadeia cinética aberta (CCA) e cadeia cinética fechada (CCF) são utilizados no tratamento da SDFP a fim de recuperar o equilíbrio muscular, restituir estabilidade articular e aliviar os sintomas dolorosos. O objetivo deste estudo foi comparar os exercícios em CCA e CCF na ativação do vasto medial oblíquo para a reabilitação dos indivíduos com a síndrome da dor femoropatelar. Neste estudo foi realizada uma revisão sistemática nas bases de dados Scielo, Cochrane e Pubmed. E ao final do trabalho podemos concluir que os exercícios em CCF, mais especificamente o agachamento, recrutam mais o vasto medial obliquo comparado aos exercícios em CCA.

Palavras- chave: articulação femoropatelar, cadeia cinética aberta, cadeia cinética fechada, músculo quadríceps e joelho.

 

ABSTRACT

The patellofemoral pain syndrome (PFPS) comprises approximately 25% of orthopedic diagnoses and is defined by a diffuse pain in the anterior knee. Even though the etiological factors of PFPS are not well defined, neuromuscular imbalance between the vastus medialis oblique (VMO) and vastus lateralis (VL) result in patellar poor alignment. Therefore the exercises in open kinetic chain (OKC) and closed kinetic chain (CKC) are used in the treatment of PPS in order to recover muscle balance, restore joint stability and relieve the painful symptoms. The purpose of this study was to compare the OKC and CKC in the activation of the vastus medialis oblique to rehabilitation of individuals with patellofemoral pain syndrome. This study was performed in a systematic review databases Scielo, Pubmed and Cochrane. And in the end of the work we concluded that the CKC exercises, specifically the squat recruits more vastus medialis obliquus compared to the OKC.

Keywords: patellofemoral joint, open kinetic chain, closed kinetic chain, muscle quadriceps, knees.

 

 

INTRODUÇÃO

A síndrome da dor femoropatelar (SDFP) é uma das desordens dolorosas mais comuns que acometem o joelho1, compreende aproximadamente 25% dos diagnósticos ortopédicos, afetando principalmente atletas e população sedentária do gênero feminino2 com idade entre 15 e 25 anos3.

Essa patologia pode ser definida como uma dor difusa na região anterior do joelho de início insidioso e de progressão lenta, 4 acompanhada por crepitação que se alivia com o repouso5. A dor pode ser desencadeada por alguma atividade da vida diária, como ajoelhar-se ou sentar-se por tempo prolongado, subir e descer escadas e agachar-se6.

Embora os fatores etiológicos da SDFP não sejam bem definidos7, as alterações biomecânicas dos membros inferiores são apontadas como principais causas6, como a pronação subtalar excessiva, o aumento do ângulo Q, a torção tibial externa, a retração do retináculo lateral e um mau comportamento patelar, 8 que ocorre devido a um desequilíbrio neuromuscular entre os músculos vasto medial oblíquo (VMO) e vasto lateral (VL)9. Neste caso a força gerada pelo músculo vasto lateral, não é adequadamente equilibrada pela força medial do vasto medial oblíquo, resultando em deslocamento lateral e mau alinhamento da patela10.

Sabe-se que o vasto medial (VM) é dividido em duas porções, o vasto medial longo (VML) e o vasto medial oblíquo (VMO)6, Essas porções apresentam diferenças anatômicas, funcionais, histoquímicase no padrão de inervação11. O músculo vasto medial oblíquo (VMO) se origina principalmente do tendão do músculo adutor magno e se insere num ângulo de 50-55º no eixo longitudinal do fêmur, sendo considerado o principal estabilizador dinâmico medial da articulação femoropatelar. 12

Com a finalidade de recuperar o equilíbrio, restituir estabilidade à articulação e aliviar os sintomas da SDFP os exercícios em cadeia cinética aberta (CCA) e cadeia cinética fechada (CCF) têm sido empregados em programas de reabilitação dos distúrbios femoropatelares13, 14.

Os exercícios em CCA caracterizam-se pela liberdade do segmento distal, ao passo que nos exercícios em CCF o segmento distal da articulação é fixo e suporta uma considerável resistência externa, o que impede ou reduz sua liberdade de movimento. 15

Os dados existentes na literatura são escassos na demonstração do método mais eficaz no recrutamento seletivo do vasto medial obliquo, e a comparação entre as cadeias aberta e fechada ainda se apresentam de forma inconclusiva.

 

OBJETIVO GERAL E OBJETIVO ESPECÍFICO

O objetivo geral deste estudo foi comparar os exercícios em CCA e CCF na ativação do vasto medial oblíquo para a reabilitação dos indivíduos com a síndrome da dor femoropatelar.

 

Os objetivos específicos deste trabalho foram:

  • Comparar qual foi o exercício que mais recrutou o músculo vasto medial oblíquo;
  • Analisar qual foi o melhor posicionamento para realizar os exercícios em CCA e em CCF, protegendo a articulação femoropatelar;
  • Qual foi o exercício mais eficaz para o tratamento da síndrome da dor femoropatelar.

 

MATÉRIAS E MÉTODOS

Para a realização deste estudo, foram pesquisados artigos de revistas que são acessados por meio das bases de dados Scielo, Cochrane e Pubmed, desde o ano de 2002 até 2012. A estratégia de busca correlacionava as seguintes palavras-chaves: articulação femoropatelar, cadeia cinética aberta, cadeia cinética fechada, músculo quadríceps e joelho. Os idiomas analisados foram o português e o inglês.

 

0Resultado/ Discussão

No estudo realizado por Cabral16, em que comparou os exercícios em CCA e CCF em relação ao tratamento da SDFP, não foi observada diferença estatisticamente significante após o tratamento na atividade EMG do músculo VM em ambos os exercícios. Bessa6 avaliou a atividade eletromiografica do vasto medial oblíquo em 10 exercícios incluindo os de CCA e CCF e os resultados mostra que nenhum dos exercícios se revelou seletivo para o VMO o que corrobora com o estudo de Cabral16 e de Fehr13 que também comparou a efetividade dos exercícios em CCA e CCF no tratamento da SDFP e os resultados deste estudo, de acordo com as condições experimentais utilizadas, não provocaram mudanças nos padrões de ativação EMG dos músculos VMO.

Santos17 comparou em seu estudo 20 mulheres, sendo dez do grupo controle e dez com SDFP, elas realizaram 11 exercícios, entre eles dois de CCA e nove de CCF e avaliamos que o grupo controle apresentou amplitude de atividade eletromiografica maior do VMO nos exercícios em CCA, e o grupo com SDFP a amplitude de atividade eletromiografica foi maior do VMO nos exercícios de CCF. Segundo Grossi8 o VMO também apresenta maior atividade elétrica na CCF, especificamente no exercício de agachamento em que o VMO mantém a patela no seu alinhamento adequado.

O estudo de Felicio18 revelou que o exercício em CCF de agachamento com associação da contração isométrica de adução da coxa é capaz de promover valores de amplitude eletromiograficos semelhantes entre as porções medial e lateral do quadríceps em comparação ao agachamento convencional, proporcionando, dessa maneira um melhor equilíbrio dinâmico da articulação patelofemoral.18 Além disso, Pulzatto19 afirma que o exercício em CCF de agachamento é um movimento funcional presente nas atividades da vida diária, também muito utilizado nos programas de reabilitação por proporcionar maior estabilidade por meio da co-contração do músculo quadríceps e isquiotibiais, e propriocepção articular.19

Ao verificar qual angulação mais adequada para realizar os exercícios notamos que, durante os exercícios de CCA a área de contato diminui e a força aumenta à medida que o joelho é estendido20. Até os 30º, o ângulo entre as forças é muito pequeno para gerar estresses compressivos altos entre a patela e os côndilos e a área de contato diminui de 90º a 0º. 12 Com uma força maior e uma área de contato menor, a pressão é máxima em torno de 35º a 45º diminuindo a seguir porque a angulação é muito pequena.20 Portanto os exercícios em CCA devem ser realizados de 0º até 15º e de 50º a 90º segundo Haupenthal20. Para Fehr13 devem ser evitados os últimos graus de extensão do joelho por aumentar o estresse femoropatelar. E durante os exercícios em CCF a área de contato e a força aumentam com o aumento da flexão do joelho, como a área de contato não aumenta a partir de 60º e a força continua aumentando, ocorre a partir daí um excesso de pressão na articulação patelofemoral20. Souza21 aponta que entre as amplitudes de 0º a 50º de flexão do joelho ocorrem as menores forças de cisalhamento. Por tanto estes estudos corroboram com os de Nobre12 que afirma que os exercícios em CCF devem evitar os 60º, pois nessa angulação o contato femoropatelar já é cerca de nove vezes a força do corpo. 12

Segundo o estudo de Pulzatto22 o exercício realizado no step a 45º recrutou de maneira mais acentuada o músculo VMO quando comparado ao ângulo de 75º, tanto no grupo controle como no grupo de indivíduos com SDFP. Já Grossi8 afirma que o exercício em CCF de agachamento a 60º apresentou maior ativação dos músculos estabilizadores patelares de indivíduos normais e com sinais de SDFP quando comparado com o agachamento a 45º.

Sousa21 avaliou em seu estudo um grupo de indivíduos saudáveis de ambos os sexos, onde realizaram exercícios de agachamento a 40º, 60º e 90º. Porém não avaliaram isoladamente os estabilizadores patelares, apenas o reto femoral dentro do grupo dos extensores do joelho e observaram que o ângulo de flexão do joelho é um fator importante para a determinação de uma maior ativação muscular, sendo 90º mais ativo que 60º e este mais ativo que 40º consecutivamente. Sendo assim se torna difícil uma avaliação mais profunda por falta de dados na literatura para comprovação de maior ativação do músculo VMO e angulação segura.

   

CONCLUSÃO

Após este levantamento podemos concluir que, os exercícios em cadeia cinética aberta e fechada aumentam a força muscular, reduzem a dor e melhoram as atividades funcionais, sendo assim são recomendados para a reabilitação dos indivíduos com SDFP. No entanto, os exercícios em cadeia cinética fechada apresentam melhor ativação do vasto medial obliquo, sendo importante manter a flexão dos joelhos durante o exercício no limite de 50º, para proteção da articulação femoropatelar.

Os estudos sobre a etiologia da SDFP e seu tratamento ainda são escassos, sendo necessários mais estudos de biomecânica e anatomia, para a realização de diagnóstico mais preciso e enfim um tratamento mais adequado.

 

REFERÊNCIAS:

1- Miyamoto, G. C.; Soriano, F. R.; Cabral, C. M. N. Alongamento muscular segmentar melhora função e alinhamento do joelho de indivíduos com síndrome femoropatelar: estudo preliminar. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, Niterói, vol. 16, n.4, jul/ago, 2010.

 

2- Tunay, V. B.; Balci, P.; Atay, A.O. et al. The effects of two different closed kinetic chain exercises on muscle strength and proprioception in patients with patellofemoral pain syndrome. Acta ortopédica et traumatológica túrcica, vol. 43, n.5, p. 419-425, Nov/dec., 2008.

 

3- Belchior, A. C. G.; Arakaki, J. C.; Bevilaqua-Grossi, D. et al. Efeitos na medida do ângulo Q, com a contração isométrica voluntária máxima do músculo quadricipital. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, Niterói, vol.12, n.1, jan/fev., 2006.

 

4- Miranda, M. F.; Gonzales, T. O. Relação do ângulo Q com a dor femoropatelar e variação da atividade elétrica do músculo vasto medial oblíquo: análise por eletro miografia. Revista Brasileira de Ciencias da Saúde, vol.6, n.16, abr/jun., 2008.

 

5- Ribeiro, A. C. S.; Grossi, D. B.; Foerster, B. et al. Avaliação eletromiografica e ressonância magnética do joelho de indivíduos com síndrome da dor femoropatelar. Revista Brasileira de Fisioterapia, São Carlos, vol.14, n.3, maio/jun., 2010.

 

6- Bessa, S. N. F.; Santos, E. P.; Silveira, R. A. G. et al. Atividade eletromiografica do vasto medial oblíquo em portadoras da síndrome da dor patelofemoral. Fisioterapia e pesquisa, São Paulo, vol.15, n. 2, 2008.

 

7- Bevilaqua-Grossi, D.; Felicio, L.R.; Leocádio, L.P. Análise do tempo de resposta reflexa dos músculos estabilizadores patelares em indivíduos com síndrome da dor patelofemoral. Revista Brasileira de Fisioterapia, São Carlos, vol.12, n. 1, jan/fev., 2008.

 

8- Bevilaqua-Grossi, D.; Felicio, L. R.; Simões, R. et al. Avaliação eletromiografica dos músculos estabilizadores da petela durante exercícios isométricos de agachamento em indivíduos com síndrome da dor femoropatelar. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, Niterói, vol.11, n. 3, maio/jun., 2005.

 

9- Garcia, F. R.; Azevedo, F. M.; Alves, Neri. Efeito da eletroestimulação do músculo vasto medial oblíquo em portadores de síndrome da dor patelofemoral: uma analise eletromiografica. Revista Brasileira de Fisioterapia, São Carlos, vol.14, n. 6, nov./dez., 2010.

 

10- Santos, G. M.; Gramani-Say, K.; Pulzatto, F. et al. Comparação dos exercícios em cadeia cinética aberta e cadeia cinética fechada na reabilitação da disfunção femoropatelar. Fisioterapia em Movimento, Curitiba, vol.24, n. 1, jan/Marc., 2011.

 

11- Bevilaqua-Grossi, D.; Pedro, V. M.; Bérzin, F. Analise funcional dos estabilizadores patelares. Acta ortopédica Brasileira, São Paulo, vol.12, n.2, abr/jun., 2004.

 

12- Nobre, T. L. Comparação dos exercícios em cadeia cinética aberta e cadeia cinética fechada na reabilitação da disfunção femoropatelar. Fisioterapia em Movimento, Curitiba, vol.24, n.1, jan/Marc. 2011.

 

13- Fehr, G.L.; Cacho, A.; Miranda, J. B. et al. Efetividade dos exercícios em cadeia cinética aberta e cadeia cinética fechada no tratamento da síndrome da dor femoropatelar. Revista Brasileira de Medicina do esporte, Niterói, vol.12, n. 2, mar/abr., 2006.

 

14- Fagan, V.; Delahunt, E. Patellofemoral pain syndrome: a review on the associa ted neuromuscular déficits and current treatment options. British Journal of Sport Medicine, vol.42, n. 10, p.489-495, 2008.

 

15- Moser, A.D.L.; Malucelli, M. F.; Bueno, S. N. Cadeia cinética aberta e fechada: uma reflexão crítica. Fisioterapia em Movimento, Curitiba, vol.23, n.4, out/dez., 2010.

 

16- Cabral, C. M. N; Melim, A .M. O.; Sacco, I. C. N. et al. Fisioterapia em pacientes com síndrome femoropatelar: comparação de exercícios em cadeia cinética aberta e fechada. Acta ortopédica Brasileira, São Paulo, vol.16, n.3, 2008.

 

17- Santos, E. P.; Bessa, S. N. F.; Lins, C. A. A. et al. Atividade eletromiografica do vasto medial oblíquo e vasto lateral durante atividades funcionais em sujeitos com síndrome da dor patelofemural. Revista Brasileira de Fisioterapia, São Carlos, vol.12, n.4, p.304-310, jul/ago., 2008.

 

18- Felício, S. N. F.; Dias, L. A.; Silva, A. P. M. C. et al. Ativação muscular estabilizadora da patela e do quadril durante exercícios de agachamento em indivíduos saudáveis. Revista Brasileira de Fisioterapia, São Carlos, vol.15, n. 2, 2008.

 

19- Gramani-Say, K.; Pulzatto, F.; Santos, G. M. et al. Efeito da rotação do quadril na síndrome da dor femoropatelar. Revista Brasileira de Fisioterapia, São Carlos, vol.10, n. 1, 2006.

 

20- Haupenthal, A.; Santos, D. P. Força e contato patelofemoral como fundamentos biomecânicos para reabilitação da síndrome da dor patelofemoral. Fisioterapia em Movimento, Curitiba, vol.19, n. 4, p.11-16, Out/Dez., 2006.

 

21- Sousa, C. O.; Ferreira, J. J. A.; Medereiros, A. C. L. V. et al. Atividade eletromiografica no agachamento nas posições de 40º, 60º e 90º de flexão do joelho. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, Niterói, vol.13, n. 5, set/out., 2010.

 

22- Pulzatto, F.; Gramani-Say, K.; Siqueira, A. C. B. et al. A influencia da altura do step no exercício de subida posterior: estudo eletromiografico em indivíduos sadios e portadores da síndrome da dor femoropatelar. Acta Ortopédica Brasileira, vol.13, n.4, 2005.